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Pedagogia Criativa

Entrevista com Marcelo Nisida

26/03/2016

 

Fale um pouco do projeto Minha Campinas e de onde veio essa ideia.

 

A Minha Campinas surge do desejo de mudança de atuação da equipe do CDI Campinas (Comitê para Democratização da Informática). O CDI recebia doações de computadores, novos e usados, e deixava em situação de uso. Com eles, formava salas de informática e cidadania nas organizações de Campinas e região com um educador social formado na metodologia baseada em Paulo Freire. Com as ferramentas digitais e metodologia os educandos e educadores desenvolviam projetos de ação social para transformar suas realidades.

 

Durante 15 anos o CDI Campinas desenvolveu essas ações com o propósito de promover a construção e o exercício da cidadania através do uso consciente das tecnologias digitais para a inclusão social e teve sucesso! Com as várias alterações no contexto social, político e tecnológico e com grande amadurecimento da rede, sentiu-se a necessidade de mudança. Sabíamos ler a realidade, entender que a mudança era necessária, fazer projetos de transformação e cobrar o poder público. Mas precisávamos de mais braços para buscar a efetivação dessa mudança.

 

Buscando referências para o planejamento, nos adaptando a essa nova realidade e buscando essas respostas, encontramos o Meu Rio. Representado pelo Rafael Rezende, conhecemos a história de atuar em rede para potencializar causas sociais que buscam melhorar a cidade e o processo de tomadas de decisão. Foi uma inspiração conhecer essa história e as ações que potencializavam toda a luta de tantos grupos.

 

No mesmo dia, sabíamos que havíamos tomado um caminho sem volta. Encontramos o que estávamos procurando, uma maneira de fazer a diferença, ainda usando tecnologia, mas com uma nova abordagem. Entramos num edital com mais de 70 cidades e 120 candidatos de 4 continentes. Foram longos 4 meses de processo de seleção, com diferentes fases. Recebemos  a notícia de uma importante fase de seleção próximo ao natal: melhor presente!

 

A última parte, foi realizar um financiamento coletivo para bancar nossa ida para o treinamento no Rio de Janeiro. Conseguimos o apoio de uma rede de 205 campineiros e campineiras que acreditaram no projeto. Depois de um mês intenso de experiências e aprendizados no Rio, voltamos para Campinas e fundamos a Minha Campinas, nascendo com Minha Blumenau, Minha Curitiba, Minha Garopaba, Minha Ouro Preto, Minha Porto Alegre e Meu Recife, nossa nova família de mobilizadores incríveis espalhados por todo país!

 

Hoje estamos com 11 meses e muito empolgados para fazer parte da diferença em Campinas. Queremos colaborar com pessoas e grupos que tem suas causas por uma cidade melhor para potencializar e concretizar suas lutas. Vamos atuar juntos para fortalecer as causas da cidade e a possibilidade real de todos participarem das decisões de interesse público do nosso futuro!

 

Comente alguns resultados que já foram alcançados e o impacto dessas conquistas para a cidade e as pessoas que vivem aqui.

 

Infelizmente, o processo é bem mais lento que gostaríamos, mas não desanimamos! Toda semana estamos conhecendo grupos e pessoas diferentes, formando rede com quem quiser atuar para melhorar nossa cidade! Já lançamos 3 mobilizações para pressionar o poder público.

 

Em setembro de 2015, foi para cancelar o aumento da tarifa de água de Campinas que, além de ilegal, teve uma justificativa absurda. Em tempos de crise hídrica, o governo pediu naturalmente que a população economizasse água. A população economizou, o governo não se planejou para a diminuição de consumo e aumentou a tarifa pela mesma economia que tinham demandado. Infelizmente, o processo está morno na justiça, mas estamos de olho para pressionar quando necessário.

 

A segunda foi para pressionar o governo para alterar o planejamento urbano pensado. Com a proposta do governo, a região do Campo Belo seria marcada como Zona de Atividade Econômica, permitindo uso apenas para comércio e indústria na região. No momento, estamos colaborando com os moradores para pedir que a marcação seja Zona Mista, permitindo as moradias das 50 mil pessoas que moram há mais de 30 anos ali, mas sem tirar comércio e indústria.

 

Por último, mas não menos importante, colaboramos com a inspiradora mobilização dos secundaristas do Estado de São Paulo. Criamos o De Guarda Pelas Escolas de Campinas, criando uma rede de alerta caso houvesse retomada das escolas ocupadas com uso de violência. Colaboramos com o direito de manifestação dos estudantes e ficamos muito felizes com a aula de cidadania que eles deram em todos nós.

 

Além disso, também realizamos o 13º Encontro da Cidadania. Um evento de compartilhamento de iniciativas sociais que tem ideias, experiências e histórias para trocar e fortalecer a atuação em rede na cidade! O público conseguiu se inspirar com as apresentações e debates. Com certeza, a rede se fortaleceu para atuar e participar das transformações da cidade.

 

Estamos todos os dias procurando conhecer mais pessoas e grupos dispostos a atuar pela cidade, para que possamos colaborar de alguma forma para potencializar suas causas e participação na cidade.

 

Também realizamos formações com a nossa a nossa metodologia para educadores sociais, já trazendo a nova perspectiva da Rede Nossas Cidades. Além de nos reunirmos periodicamente para discutir pontos cruciais da política da nossa cidade com boa presença dos cidadãos de Campinas.

 

Como as tecnologias podem ajudar em projetos educacionais e de intervenção social?

 

As tecnologias são uma realidade desde sempre. Instrumentos utilizados como interface para alcançar um objetivo sempre foram utilizados pela humanidade. Essas ferramentas foram ótimos atalhos para o nosso desenvolvimento enquanto sociedade. Mas é isso que elas são: ferramentas.

 

As tecnologias digitais são muito boas para nos dar perspectivas de processos que já ocorriam, tanto educacionais como sociais. Elas facilitam essa intermediação de troca entre pessoas, seja unindo pessoas separadas pela distância, seja pela troca instantânea de ideias, por um enorme armazenamento de dados ou os diversos usos e inovações que surgem todos os dias. Mas, no fim, elas são sempre maneiras de entender a nós mesmos e como nos relacionamos.

 

Na educação, há infinitas possibilidades e potencialidades de como trocar informações e conhecimentos com as novas tecnologias. Mas acredito que a verdadeira inovação está no fato da tecnologia conseguir colocar o ator aluno/educando cada vez menos numa posição submissa e não ativa, apenas um interlocutor do processo. E cada vez mais numa posição ativa, protagonista e participativa da sua própria formação, fortalecendo sua co-responsabilidade, se apropriando mais dos conhecimentos e reconhecendo cada vez mais suas próprias potencialidades, sempre dialogando com o outro.

 

Veja o caso das ocupações das escolas, por exemplo. Tudo que fizemos foi abrir uma tecnologia que colaborou com a manutenção das ocupações dos estudantes. Mas o que realmente fez diferença nesse processo de aprendizagem de toda a sociedade foi a maneira e a vontade dos estudantes se mobilizarem.

 

As intervenções sociais são fruto desse processo de educação. Se um cidadão tem uma formação mais proativa, com mais co-responsabilidade, auto conhecimento e diálogo, acredito que ele estará mais propenso a entender que não vive e não viverá sozinho. Portanto, vai usar seus recursos pessoais para melhorar o mundo a sua volta junto com a sua comunidade. Esse impacto é irreversível.

 

Como você explica as recentes mobilizações que tem sido articuladas através das redes sociais?

 

Creio que as redes sociais digitais estão articulando cada vez mais diversos processos da nossa vida. Como nos representamos, como conversamos, como nos divertimos... Acho que mobilizações são um desdobramento natural do papel que as redes sociais tomaram na vida da nossa sociedade.

 

É muito sedutor para mobilizações, da maneira como historicamente as entendemos, poder contatar milhões de pessoas e combinar com todas instantaneamente uma ação a ser feita. Por isso, vejo como um caminho natural. Mas também vejo que essas mesmas tecnologias tem potencialidades para ir além da quantidade de pessoas e de como enxergamos mobilizações hoje. É um universo o qual, pra mim, ainda não encontramos os limites e, por isso, temos grande liberdade para tentar, criar e aperfeiçoar, expandindo nossos braços mobilizadores.

 

Você acha que a internet contribui para que jovens fiquem mais interessados em aprender?

 

De certa forma sim. Como disse acima, acho que ferramentas, como a internet, são apenas ferramentas dentro do processo de ensino aprendizagem ou de qualquer outro. É claro que a informação é muito mais facilmente encontrada, mas isso não tira a complexidade de se apropriar de um conhecimento, que pode se dar on ou offline. Há uma boa oportunidade de usar a internet para esse processo de apropriação, mas acho que ainda estamos entendendo como fazer isso. Penso que não há nada que engaje mais alguém a querer aprender do que a convivência com outras pessoas, e isso nem a internet nem qualquer ferramenta consegue imitar.

 

Como você enxerga a educação nos próximos 5 ou 10 anos? Vocês já pensam em alguma iniciativa para estimular essa inovação nas escolas de Campinas?

 

É muito difícil fazer qualquer projeção. Por um lado, estamos bem melhor do que estávamos há 10 anos. Por outro, as escolhas educacionais, ideológicas e políticas que definem o futuro da educação na nossa sociedade são preocupantes. Mas as escolhas que vão pelo caminho da não educação, do não diálogo, da educação como acúmulo de informações não tem grande vida útil e, em algum momento, a educação que valoriza o desenvolvimento pessoal de cada cidadão, do diálogo, da vida em coletivo será o caminho inevitável (essa frase foi escrita antes da mobilização dos estudantes e eles só confirmaram essa esperança).

 

A Minha Campinas é uma rede conectada com a Rede Nossas Cidades, junto com as outras 8 Minhas. A Rede Nossas Cidades lançou recentemente a campanha Internet na Escola, uma mobilização para pressionar o governo federal a colocar 10 Mb de internet em todas as escolas do Brasil.

 

A escola, a participação social e a inovação são elementos indissociáveis de um mesmo universo, de uma mesma rede. A escola pretende, ou deveria, pensar basicamente no desenvolvimento de um cidadão. Se esse processo for de qualidade, com diálogo, valorização do indivíduo e das diferenças é bem provável que saiam vários bons cidadãos daí. E vários bons cidadãos juntos, pensando, vivendo, debatendo, criando, discutindo e produzindo necessariamente vão ver soluções que outras gerações não viram, vão inovar.

 

Estamos todos em rede. As pessoas, os temas, as causas, os problemas e as soluções, tudo. Se um mexe, tudo mexe. O que podemos fazer é admitir isso e atuar como a rede que somos. Eu e a Minha Campinas estamos dispostos a fazer isso e queremos colaborar para que todos possam também se conectar a isso tudo e, juntos, construir uma cidade melhor para todos!

 

Marcelo Nisida - Equipe Minha Campinas

 

Email: marcelo@minhacampinas.org.brSite: www.minhacampinas.org.br

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