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Pedagogia Criativa

Entrevista com Rodolfo Mattiello

30/04/2015

 

Fale um pouco sobre o que é linguística e o que despertou seu interesse por esta área.

 

Linguística é entender as características que envolvem o processo de comunicação de uma língua. Desde a produção de sons, passando por peculiaridades (sociais) da língua, funcionamento cerebral para decodificação da informação e, até mesmo, comportamento.

 

Como tudo isso é visto no Brasil? As escolas aplicam corretamente este conceito e suas metodologias?

 

No Brasil, os estudos de linguagem são muito bons, mas acredito estarem, muitas vezes, preocupados em dizer o que é certo ou errado numa língua, sendo que ela é uma entidade mórfica, de mudança constante. Essa característica dinâmica da língua acaba tendo um impacto forte nas escolas que se preocupam com tecnicalidades da língua materna e se esquecem do viés comunicativo que, de fato, é a principal razão pela qual aprendemos a falar.

 

Dê alguns exemplos de materiais ou mudanças que poderiam gerar bons resultados para o aprendizado.

 

As escolas de idiomas meio que acertaram na mosca quando perceberam que a função da língua é a comunicação e eliminaram algumas burocracias. Acredito que para falarmos e nos comunicarmos muito bem, não há necessidade de saber destrinchar orações subordinadas e seus conectivos. Contextualizar esses elementos e fazer com que os alunos saibam usá-los, sim, é fundamental. Mas isso requer uma mudança de paradigma muito grande na formação de professores e a aproximação efetiva deles com as universidades.

 

Você é a favor da tecnologia na sala de aula?

 

Muito a favor! A natureza de uma tecnologia é melhorar e ajudar algo que nós, sozinhos, não conseguimos fazer, ou seja, revolucionar. A invenção do telefone fez com que as pessoas se aproximassem para conversar e sua evolução nos trouxe até os dias de hoje, com smartphones, Skype, etc. Levar para a sala de aula ferramentas que ajudem o alcance de objetivos numa distância que, sozinhos, nós professores não conseguiríamos é de fundamental importância.

 

Qual a importância de atividades lúdicas e de jogos educativos?

 

Jogos são legais, não importa se envolvem tecnologia de ponta ou um tabuleiro com dados. Implementar jogos no ensino de línguas é, além de um fator motivador, isto é, ganhar o jogo, um item instigador para que o conteúdo aprendido seja utilizado (no caso a língua) para se alcançar o objetivo.

 

Como o cérebro interpreta (diferencia) experiências e conteúdo teórico? Qual seria a melhor maneira de memorizar o que se aprende?

 

Embora neurologia nem neurolinguística sejam minhas áreas de expertise, por experiência profissional, os alunos fazem uma ligação direta, uma associação entre o conteúdo teórico e as experiências sociais. Por isso a contextualização das aulas é importante. Falar sobre algo relevante para os alunos os motivam e desperta essa conexão que favorece o aprendizado. Não existe uma fórmula mágica para memorizar, mesmo porque memorizar nem sempre significa entender. No caso da língua, memorizar pode culminar numa repetição sem nexo. No entanto, "papagaiar" pode ser um estímulo de aprendizado para outros, isso é muito subjetivo.

 

Sua empresa presta consultoria para professores de língua estrangeira. Quais são os erros mais comuns ao preparar materiais que serão utilizados em sala de aula?

 

Não diria que são erros. Os materiais precisam se massificar para atingir o maior número de alunos possível. Por isso, fica completamente inviável desenvolver materiais que respeitam - não vou nem falar da individualidade do aluno - a dinâmica de cada sala de aula, de cada escola, de cada cidade brasileira. O que sempre falo para os professores é que eles saibam entender as necessidades e as características de seus alunos e ofereçam atividades que os atinjam. Muitas vezes a atividade do material usado em sala pode não ser relevante ou desafiador para uma determinada turma.

 

Aprender inglês faz a pessoa pensar e ver o mundo de forma diferente?

 

Saber falar uma língua não nos faz ver o mundo diferente. Saber aproveitar as vantagens que uma língua oferece, sim. As línguas abrem portas para o mundo e nesse mundão (rincão) tem muita coisa legal. Muitas pessoas com opiniões diferentes, com visões diferentes que nos fazem mudar, ou não, de pensamento. A internet facilita isso até. Mostrar aos alunos desde cedo que o céu é o limite, simplesmente porque sabem se comunicar em outros idiomas, faz com que eles sejam adultos mais certos de sua função no mundo.

 

Como você imagina a “escola do futuro”?

 

Difícil falar sobre isso com a situação atual do sistema educacional brasileiro. Professores levando pancada, sendo desvalorizados constantemente, enfim... A escola do futuro, que em alguns lugares é do presente, é aquela que reconhece as características de cada geração de alunos e capacita seus professores para que eles estejam sempre preparados para oferecer desafios para seus alunos. O desafio para o aluno de hoje com certeza não será o mesmo do aluno da mesma faixa etária daqui quatro, cinco anos. A escola que preparar seus professores para isso - em todos os aspectos - será sempre uma "escola do futuro".

 

Deixe uma dica para estimular alunos e professores.

 

Nunca se esqueçam que um dia já foram alunos e que sempre terá alguém com mais conhecimento que você, não importa a faixa etária.

 

Rodolfo Mattiello é formado em Linguística pela PUC-Campinas, com mestrado em Linguística Aplicada pela University of Edinburgh.

 

E-mail: mca@mattielloconsultoria.com.br | Site: www.mattielloconsultoria.com.br

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